Na apresentação de Equador, em 2009, disse não ter "cabedal" para fazer novelas. Já ganhou estofo entretanto?.[risos] Já. Fui ao ginásio [risos]... Sim, se eu disse isso na altura, era uma verdade. O Equador foi uma grande escola, um misto de cinema e televisão. Foi uma boa preparação para isto. Eu já tinha feito uma novela [Fúria de Viver, SIC, 2002], sei o que é que isso representa. Portanto, se disse isso na altura, foi bem dito!.O que é que o fez aceitar fazer Belmonte?.Essa é uma pergunta difícil de responder porque tem muitas variantes. Além da económica, como é óbvio, das condições, uma muito importante é o projeto em si. Como o Equador calhou numa viragem, numa necessidade de se fazer alguma coisa diferente, esta foi também a proposta que surgiu agora. Que, dentro do género, ia ser uma coisa um bocadinho diferente. E, realmente, está a ser. Pelo grupo de atores, pelos técnicos, toda a equipa que está aqui a dar o litro justifica isso..E quem é que o fez aceitar?.Foi olhar-me ao espelho mais do que uma vez. Fui eu próprio..A questão financeira foi um fator de peso?.Foi um fator importante, mas não decisivo. Nas negociações, houve depois outras questões, como a de eu querer experimentar o género outra vez. Não sou músico, às vezes tenho muita inveja dos músicos, porque podem tocar em qualquer sítio, a qualquer hora. Um ator depende sempre de uma estrutura. Pelo menos, eu. Chegou a altura, porque já não fazia televisão há algum tempo, deixou de haver séries... e ganhei sede o suficiente para querer voltar aqui ao ginásio! É muito aliciante e, ao mesmo tempo, muito difícil para um ator. É um desafio muito grande, o dia a dia... temos muitas cenas para contar, histórias diferentes... temos de nos desmultiplicar, aproveitar a energia e a sabedoria de toda a gente para conseguir, muitas vezes do nada, fazer qualquer coisa..Está a ser uma experiência fora da sua zona de conforto?.Não. Foi mais a da SIC, porque era mais inexperiente. Agora, pelo contrário..O que é que, para si, era, ou é, mais complicado no formato novela?.É o ritmo a que são gravadas as cenas, o tempo que isso demora, são nove meses. O mais difícil é manter a frescura, a alegria, a vontade de vir trabalhar como no primeiro dia. É um desafio..Disse também, na altura de Equador, que tinha sido escolhido por não ter "a cara gasta". Receia que estar agora tantos meses no ecrã lhe gaste a sua imagem?.Não me lembro de ter dito isso. Alguém escreveu, porque nem sempre se escreve o que nós dizemos. Na altura, não sei se me escolheram por isso e espero que agora também não. E não tenho receio disso, pelo contrário. Em Portugal, muitas vezes os atores que não estão em televisão não são considerados atores. Até é ao contrário. Tenho muitos colegas que, por não fazerem televisão, não têm tanta sorte de serem considerados atores, de darem entrevistas, de aparecerem nos sítios. E são atores incríveis..Em entrevista à NTV, em 2009, o Filipe falava da angústia e do medo que acompanham o processo de construção da personagem. Tendo em conta que uma novela é um projeto que, no mínimo, dura nove meses, é preciso racionalizar esses sentimentos? Porque andar nove meses angustiado deve ser complicado....É impossível! Essa é uma coisa que aprendi, por isso é que, na altura, falei de não ter cabedal. Na altura em que fiz a novela da SIC, pensava demasiado nas coisas. Preocupava-me com tudo o que mexia... o que não é mau. Mas realmente é desgastante. Agora, sinto que a vida já me deu outro tipo de tábuas, por ter trabalhado em várias coisas. Umas tornaram-se mais fáceis, outras mais complicadas. Aqui, temos a vantagem de não sermos largados no primeiro dia para gravar, porque temos uma equipa de direção de atores que tem ajudado muito a que não tenhamos qualquer tipo de problema. Tenho muita confiança nesta equipa. Quem vê um episódio nota-se, estamos todos a falar a mesma linguagem. Isso é muito bom. .Quem é o João Belmonte?.É o mais velho dos irmãos adotados. Depois da morte do pai, ele fica com tudo às costas. O funcionamento da família, dos negócios..O facto de o protagonismo estar repartido por cinco homens e não ser, como na maioria das novelas, um casal, ou uma ou duas mulheres, agradou-lhe? .Acho ótimo, embora não concorde que haja cinco protagonistas, porque acho que as mulheres também o são. Nesta novela, uma vantagem que me agrada muito é que o protagonismo e as histórias estão muito bem divididos. É verdade que os cinco irmãos Belmonte são a coluna vertebral da história, não pensei nisso, se é bom se é mau. Ouvi dizer que é uma novela para mulheres. Não concordo, acho que é uma novela para toda a gente..Mas tem de concordar que é muito apelativo para as mulheres ver cinco homens bonitos....Sim mas.... Só para ver há outras coisas. As histórias que se contam vão para além disso. .Como tem sido trabalhar com os seus quatro irmãos na ficção [Marco d'Almeida, João Catarré, Lourenço Ortigão e Diogo Amaral]?.Tem sido uma maravilha. Estamos a conseguir passar para fora que se acredite que eles são mesmo irmãos. Está a ser uma viagem muito interessante com eles. Está a ser muito bom..No domingo de antestreia, Belmonte liderou as audiências, com 1,4 milhões de telespectadores..Disseram-nos isso. É verdade que a pessoa, por mais que não ligue, acaba sempre por olhar. É como o futebol [risos]. Tento não pensar muito nisso porque senão é mais uma pressão e uma angústia que não é nossa. Mas claro que toda a gente quer estar à frente e eu espero que sim, que a TVI consiga com esta novela os seus objetivos. Assim todos estamos felizes..O ator deve não se deixar afetar pela questão das audiências?.Compreendo que muitos atores se preocupem mais do que eu porque eu não pertenço à casa, estou só de passagem. O meu trabalho não depende necessariamente disto. Mas, como disse, quero muito que a novela tenha o maior êxito possível. .Quando fez a série Equador, encontrou a TVI de José Eduardo Moniz e a Plural de André Cerqueira. Agora, está na era de Luís Cunha Velho e Luís Esparteiro. Nota muitas diferenças?.Não sei, porque o Equador foi uma ilha, foi quase feito fora desta casa. Sei que gostei muito de trabalhar no Equador, porque era uma equipa muito apaixonada. O André é uma pessoa superapaixonada pelo que faz e conseguia motivar toda a gente. E a motivação é fundamental..Sente essa motivação agora?.Sinto, e um pouco de stress e pressão por fazer as coisas bem. Falei com os atores, quando estávamos no Brasil [parte da ação de Belmonte passa-se no Pantanal], e um deles dizia-me: "Eu nunca falei tanto de uma novela como estou a falar agora!". E é verdade. Estamos todos muito dentro do assunto e há uma motivação geral. Espero que os técnicos também a tenham. Toda a gente tem de ter, senão nota-se..Depois de Equador, foi assediado pela SIC e pela TVI para fazer novela?.Sim..Pelas duas estações?.Felizmente, e nunca fecho portas. Por não as ter fechado é que estou aqui hoje. Felizmente tive muitos convites, e vou tendo, para integrar projetos de novelas e séries. .Foi convidado para fazer Dancin'Days ou Sol de Inverno?.Não me lembro... não sei se foi tão próximo..Porque é que não aceitou um convite da SIC e fê-lo com a TVI?.Porque não tem nada que ver com a SIC ou com a TVI. Tem que ver com projetos e trabalho. Como não tenho contrato em lado nenhum, tenho a vantagem de ser independente. E friso que gosto muito de estar independente, no sentido de estar disponível para qualquer estação que me queira. A TVI realmente quis-me muito. E isso é muito bom. Fiquei muito grato, e aqui estou..A SIC tem cinco novelas em antena. A TVI tem outras cinco. Parece-lhe excessivo?.Não sei... como não vejo televisão, sinceramente, não faço ideia. Por um lado, acho que as pessoas, ao verem tanta televisão, ficam um pouco alheadas do que se está a passar neste país. Por outro lado, entendo perfeitamente que, depois de um dia de trabalho, as pessoas querem é ver coisas bonitas e ir para outro mundo. É muito positivo para nós, atores, que isso aconteça. É sinal de que muitos vão continuar a ter trabalho. Isto é uma simbiose. Quanto mais ficção portuguesa, mais trabalho..A RTP1 tem no ar a segunda série de Bem-vindos a Beirais e arrancou agora com Os Nossos Dias. Uma vez que temos as estações privadas a fazer ficção, a estação pública não deveria oferecer conteúdos alternativos? .Sim, sem dúvida. A RTP2 é um canal de que gosto muito e que não deveria acabar nunca porque realmente oferece essa alternativa. É verdade que é pouca alternativa. Mas acho que a responsabilidade não devia ser só da RTP, mas de todos os canais, de tentar, além das questões monetárias, de dar coisas diferentes às pessoas, cultura. Mas, como a cultura está a ser cortada pelo nosso próprio governo, o exemplo é muito mau.."Não tenho Facebook nem quero saber disso para nada".Quando fez a série Equador, no seu contrato tinha uma cláusula em relação às entrevistas e ao contacto com a imprensa. Para fazer Belmonte fez questão de ter essas condições?.Ainda bem que me está a fazer essa pergunta, porque é jornalista e eu respeito muito o trabalho dos jornalistas, por vivermos e precisarmos uns dos outros. Mas... quando faço filmes ou outras coisas que não interessam tanto, não sou tão chamado a falar. Confesso que me custa dar entrevistas no processo de trabalho. Custa-me falar da história, da personagem, e se puder evitar isso, tento sempre fazê-lo, porque da minha vida particular não me interessa falar dela a ninguém. Por isso, eu gostaria muito de ter essa paz com os meios de comunicação social e que percebessem que não é prepotência nem arrogância. É respeito. Há sempre um momento para tudo, como agora, que estamos aqui a conversar. Só acho é que não somos todos iguais, não temos de o ser. Eu só peço que se fale sobre o meu trabalho. Terei todo o gosto em fazê-lo, mas nada mais. Só que muitas vezes se tenta falar sobre outras coisas e para não criar situações menos agradáveis, prefiro deixar isso bem claro desde o início..Este tipo de negociação é muito comum lá fora. Por cá, não existe ou, se existe, não é falada. Acha que esse cuidado em negociar as suas condições de trabalho pode ser confundido com tiques de estrela, com prepotência, como disse há pouco?.Eu acho que sim, que pode, perfeitamente. Já me vieram dizer que pode ser considerada uma atitude um pouco prepotente. Eu acho que não. Acho que não tem nada que ver com estrelismo. Tem que ver com métodos de trabalho. E acho que o mistério é muito importante para um ator. .Como assim?.Não revelar tudo. Não estar sempre tudo em cima da mesa, as pessoas não saberem tudo da nossa vida. Acho que é uma vantagem para um artista. Mas há quem siga para outras linhas... eu respeito. Só peço para ser respeitado..Diz-se que o Filipe tem mau feitio. O que é isso de ter mau feitio?.Não se diz, foi só um jornal muito fraco, que felizmente já fechou, que disse isso uma vez, por não terem conseguido falar comigo ou por eu não ter querido falar. Mas eu acho graça. As pessoas gostam de colocar rótulos em tudo e mais alguma coisa. Aquelas pessoas que conseguimos bem decifrar ou ter na mão... temos tendência para colocar essas pessoas sempre do outro lado. Nesse caso, puseram-me esse rótulo do mau feitio. Não me importo nada..Custa-lhe fazer cedências no seu trabalho?.Não. Acho que há muito mais gente a pensar melhor isto do que eu e com essa responsabilidade. Isto é um puzzle muito grande. Eu aqui tento ao máximo fazer o meu trabalho e se for preciso flexibilidade, temos de ter todos. Se não tivermos, não é possível avançar. Vejo à minha volta muita gente que trabalha muitas horas além do que tem de trabalhar, exatamente para acabar uma cena ou para acabar o dia. Se toda a gente à minha volta o faz, não tenho de ser eu a dizer "sto não está bem".Daniel Day Lewis, quando aceitou o Óscar de Melhor Ator pelo filme Lincoln, agradeceu à mulher e disse que ela tinha vivido ao longo dos anos com muitos homens diferentes. O Filipe também leva as suas personagens para casa?.Tento não o fazer, cada vez mais. Acho a vida muito mais importante. Acho que o ator é vida, e vice-versa. Tento sempre desmistificar algumas coisas que pensava antigamente..Por exemplo?.Essa questão da personagem. Quando andamos na escola levamos as coisas muito a sério... depois, vamos percebendo que cada um tem a sua visão. Como lhe disse, eu gosto muito mais da vida e acho que uma pessoa deve tentar ao máximo separar as coisas. Eu faço por isso..Receia a exposição mediática que Belmonte lhe vai trazer?.Não, porque já a tenho desde o Equador, que foi uma série muito falada, com muita pressão. As pessoas já sabem o que é que eu sou, tenho essa vantagem. Nunca tive problemas com as pessoas na rua. São sempre muito respeitosas, falam-me sobre o meu trabalho e isso é sempre muito agradável. Quem é que não gosta de ser reconhecido pelo seu trabalho? .Disse-me que não via muita televisão. O que é que costuma ver?.A RTP2 e o BabyTV [risos]..E futebol?.Simpatizo, mas não me emociona..E em relação às redes sociais?.Não tenho Facebook nem quero saber disso para nada..Mas não vê utilidade?.Não gosto. Eu já vejo tão pouco as pessoas, veria ainda menos..Ter sido despedido da peça O Deus da Matança [em 2009, juntamente com a namorada, a atriz Nuria Mencía, foi despedido do elenco da peça, antes da estreia] fechou-lhe algumas portas no teatro?.Não, pelo contrário. Abriram-se outras..Porquê?.Porque... eu não fui bem despedido. .Quer clarificar a história?.Não quero falar sobre esse tema mas... sim, fui despedido. É a palavra certa. Mas foi de comum acordo. Foi um casamento que acabou antes de dar problemas. Mas felizmente não tive mais problemas desses, e acabei de fazer uma peça de que gostei muito, Conversas depois de u Enterro..Como é que surge a representação na sua vida?.Fazia figuração em novelas, na altura. Fui fazer um curso no IFICT [Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral]. Entrei, na altura, fiquei todo contente..Que idade tinha?.Vinte e tal. Soube das audições no Conservatório de Teatro, mesmo assim concorri a Filosofia e mais outra coisa, e entrei no Conservatório..Porque é que começou a fazer figuração?.No curso que fiz de Marketing e Publicidade, apresentei alguns trabalhos em vídeo e o meu professor de Português disse-me que eu tinha mais jeito para aquilo do que para marketing [risos].."O retorno dos portugueses das ex-colónias é muito recente e ainda hoje está tudo muito mal resolvido".O Filipe disse, em entrevista à jornalista Susana Bento Ramos, para o programa da TVI24 Rev TV, que o seu pai fazia corridas de motos em Angola. Herdou esse gosto dele?.Acho que sim. Fui o único irmão que pediu uma moto, logo aos 16 anos. Acho que me está nos genes. O meu pai foi um corredor muito bom, por isso quase de certeza que foi daí..Quantos irmãos tem?.Dois. Sou o do meio..Como é que foi crescer sendo o irmão do meio?.Foi sempre bom. Damo-nos todos muito bem, felizmente..Mais nenhum está ligado às artes?.Não, são de outras áreas. Outras artes!.Que recordações tem de Nova Lisboa [atual Huambo, Angola, onde nasceu, em 1973]?.Tenho recordações bem frescas porque voltei lá há quatro anos para ir buscar o bilhete de identidade. Tinha muitas memórias emocionais, de alma, e agora já consigo visualizar o sítio onde vivíamos, as ruas todas. Fiquei com vontade de lá voltar..Qual foi o primeiro impacte quando contactou com o sítio onde nasceu?.Foi muito interessante. Senti-me muito bem a filmar em Moçambique [onde fez o filme A Costa dos Murmúrios] por isso é que depois quis ir a Angola. Fiquei com a sensação de que podia lá viver perfeitamente. .Isso seria exequível?.Por enquanto não, mas nunca se sabe..Fez questão de adquirir dupla nacionalidade..Pedi a dupla nacionalidade porque me senti bem naquela terra, nasci lá, sou angolano..Como foi o retorno de Angola para a sua família?.Foi muito duro! Os meus pais tiveram de nos pôr num avião com pessoas que não conheciam. Foi muito duro..Em que ano regressou?.Em 1975, quando estava tudo a rebentar, foi muito complicado. Os meus pais conseguiram primeiro salvar-nos, depois conseguiram chegar. Mas foi terrível. Perdemos muitas coisas, como muitos portugueses..O que é que os seus pais faziam em Angola?.A minha mãe trabalhava na Cuca [marca de cerveja angolana] e o meu pai tinha uma loja de desporto..Revolta-o pensar na forma como os portugueses das antigas colónias foram tratados?.É tudo muito recente e ainda hoje está tudo muito mal resolvido. Fala-se muito pouco desses tempos. Sei que houve uma série na RTP1 [Depois do Adeus], mas fala-se muito pouco disto. E é um material tão rico. Mais grave ainda são os retornados de guerra que não têm, na minha opinião, o apoio psicológico que deveriam ter. É um problema de muitas famílias e não se fala muito disso..É quase como um tabu, mas que deixa marcas nas gerações seguintes....Sim, sim. Todas as famílias. É um drama muito grande..Porque é que acha que há este silêncio? Parece que as pessoas têm vontade de esquecer..Se calhar as pessoas não têm vontade de esquecer. Se calhar o sistema é que não está muito interessado em relembrar. Senão, apoiaria muito mais. Os apoios que há são de pessoas independentes que decidiram ajudar. Não é instituído. Estou a falar um pouco de cor, mas os que há não são suficientes. Na altura do filme, em Moçambique, informei-me. Nós somos o único povo que levou as mulheres para a guerra, e n'A Costa dos Murmúrios está muito implícito isso. Elas passavam o cabelo a ferro, entravam numa espécie de catharsis... enlouqueciam no hotel, a contar as baixas... nunca tivemos guerra cá dentro. E isso nota-se. Para o bom e para o mau..Os seus pais voltaram a Angola?.O meu pai, não. A minha mãe, sim..Como foi o regresso dela?.Foi muito interessante, porque quando eu quis ir, ela não quis saber. Depois de eu lá estar, comecei a falar-lhe dos sítios onde estava e ela, felizmente, um ano depois, foi lá. Foi muito bom para fazer as pazes com o passado, reencontrar coisas... ela veio muito feliz, foi muito bom..O seu pai teve essa vontade [o pai do ator faleceu em 2002]?.Teve. Mas nunca pôde.."Ser pai deu-me muito mais alegria de viver".Gostava de poder levar a sua filha [Antónia, de 2 anos, fruto da relação com a atriz espanhola Núria Mencía] a Angola?.Gostava muito. Gostava, inclusive, de tirar o bilhete de identidade dela, mas para isso tenho de ir lá tratar dos papéis..A sua filha tem dupla nacionalidade?.Tem. É ibérica!.E fala as duas línguas?.Fala, fala!.É quase como o romance de José Saramago, A Jangada de Pedra!.[risos] É muito bom. As crianças podem aprender até seis línguas. Têm é de ser ensinadas por seis pessoas diferentes..E ela já fala bem o português e o castelhano?.Já, já. Percebe tudo, fala e mistura as duas línguas..Ser pai mudou a sua vida?.Mudou-me muito, no sentido das prioridades. Deu-me muito mais alegria de viver..Vê alguma coisa de si nela?.Estou há dois anos a contemplá-la. Só a vejo a ela, não me vejo a mim. Não me consigo ver nela... vejo-a como um ser único. E estou apaixonado!.Quando olha para ela fica maravilhado a pensar "como é que consegui fazer isto"?.Fico, como todos os pais. Fico horas a olhar para os dedinhos, é fantástico. É uma experiência filosófica, existencial..Sendo tanto o Filipe como a Núria atores, e sendo uma profissão instável, têm receios em relação ao futuro da Antónia?.Quando mais diversidade, melhor. Não temos muito medo das viagens, já estamos habituados. Faz-lhe muito bem quando ela vai e volta. Quanto mais mundo ela vir, melhor. Claro que quando chegar a altura de ela ir para a escola, tomaremos as nossas decisões..Já pensou em que país é que ela vai estudar?.Não pensamos muito no amanhã. Vamos vivendo o hoje, temos muito de sobra em que pensar [risos]..O facto de a sua mulher ser atriz facilita a vossa relação?.Sou um grande admirador do trabalho da minha mulher, em separado da nossa vida. É mesmo verdade. Isso provavelmente ajuda..Já trabalharam juntos..Já, e correu muito bem..Conseguem chegar a casa e não falar sobre trabalho?.Quando conversamos é com prazer. Como sabemos os dois a mesma linguagem, é uma das grandes vantagens. E também sabemos muito bem não falar sobre isso e ter outros amigos e sair um bocado do nosso umbigo..Quais são os seus grandes prazeres quando não está a trabalhar?.Música, música, música. Adoro! .Ouvir, apenas?.Ouvir e também produzir algumas coisas. Mas muito a título pessoal. Tenho os aparelhos em casa... Produzir até é um bocado prepotente da minha parte [risos]. Mas brinco muito e experimento. .Sei que tem uma grande paixão pela música eletrónica..Sempre gostei muito de música, e continuo a gostar. De todo o tipo. Ouvi muito heavy metal, quando era adolescente e continuo a ouvir isso tudo. Se calhar, a música eletrónica abriu-me um campo mais vasto. Não há necessariamente uma letra. Gosto muito de minimal [subgénero de música eletrónica], porque não me impõe tanto e me permite viajar mais através da música. Depois, também gosto muito de transe, se calhar pelo apelo a África..Se fôssemos ao Boom Festival [festival de música eletrónica, que se realiza bienalmente em Idanha-a-Nova], éramos capazes de o ver lá?.Provavelmente. Já fui e, para mim, é um dos melhores do mundo. .Fez 40 anos este ano e conta com 20 de carreira. Acha que está no caminho certo?.Acho que sim! Sinto-me feliz no que faço, é um privilégio. Por enquanto, posso dizer que sim!